Começou como uma piada. A Marta lidera uma equipa numa consultora de dimensão média em Coimbra, e a reunião semanal de terça de manhã corria sempre da mesma maneira. Oito pessoas à volta de uma mesa, portáteis abertos, café em copos de cartão. Ao fim de vinte minutos, os primeiros olhares fugiam para outro ecrã. Ao fim de quarenta, só três pessoas ainda falavam. Já tinha tentado de tudo: uma agenda mais apertada, portáteis fechados, um temporizador. Cada solução durava uma ou duas semanas.
Até que o Tiago, o mais novo da equipa, disse quase de passagem: "Porque é que não fazemos a reunião a andar?" Toda a gente se riu. A Marta também. Mas na semana seguinte, às dez horas, estava à porta de entrada, de casaco vestido.
A primeira vez
Foi estranho. Oito pessoas a caminhar pela margem do Mondego, umas com casacos demasiado finos para o vento que sobe do rio, outras com sapatos que nunca tinham sido pensados para a calçada portuguesa. Nenhuma agenda num ecrã, apenas três pontos que a Marta tinha fixado de manhã. No primeiro quarto de hora andaram em molho e metade não percebia o que a outra metade dizia.
Depois aconteceu algo que ninguém tinha previsto. O grupo dividiu-se naturalmente em pares e trios, e as conversas soltaram-se. A Sofia, que raramente falava nas reuniões, explicou à Marta, num troço estreito do passeio junto ao rio, porque é que um projeto de um cliente estava parado há semanas. "À mesa nunca o teria dito", contou mais tarde. "Ali soa logo a queixa."
A Marta acha que tem a ver com a posição. Caminhar ao lado de alguém é diferente de estar sentado à sua frente. Olha-se na mesma direção, há menos contacto visual, e os silêncios não incomodam porque se está a andar de qualquer forma. É a experiência dela, não uma lei. Mas ouve o mesmo de outras pessoas.
O que mudou
A equipa manteve o hábito. Não todas as semanas: com chuva forte ficavam dentro de portas, o que num inverno de Coimbra acontece mais vezes do que os folhetos turísticos deixam adivinhar. Mas com frequência suficiente para se tornar rotina. E surgiram consequências que ninguém tinha planeado.
As reuniões ficaram mais curtas. Uma caminhada tem um fim natural: quando se está de volta à porta, acabou. O que numa sala de reuniões se arrastava facilmente até ao meio-dia e cinco ficava agora resolvido em três quartos de hora. As decisões tornaram-se mais concretas, porque não havia ecrã atrás do qual desaparecer e, no fim, alguém perguntava simplesmente: "Então, quem faz o quê?"
O conteúdo também mudou. Na parte de brainstorming, novas ideias para uma proposta a um cliente, as coisas pareciam correr melhor lá fora. Há investigação sobre isto. Numa série de experiências norte-americanas publicada em 2014, 81% dos participantes foram mais criativos a caminhar do que sentados, num teste em que é preciso imaginar o maior número possível de usos para um objeto comum. Em tarefas em que se procura uma única resposta certa, o efeito foi muito menor. Caminhar ajuda sobretudo a abrir ideias, menos a fechá-las.
E dois colegas que durante anos só se conheciam por email, o responsável pela contabilidade e um gestor de projeto destacado temporariamente do escritório do Porto, descobriram que faziam os mesmos trilhos de bicicleta na serra da Lousã.
O Rui e as costas
O Rui, um dos consultores seniores, reparou noutra coisa. Há meses que tinha a zona lombar rígida, o que atribuía à idade e à viagem diária de carro desde Aveiro. "Não tinha razão nenhuma para pensar que as reuniões tinham alguma coisa a ver com isso", diz. "Até que, ao fim de algumas semanas, reparei que estava menos rígido na terça à noite do que na segunda à noite."
Não será certamente a única explicação, admite. Mas pô-lo a fazer contas. O carro, a secretária, a sala de reuniões, o sofá à noite. Chegou a mais horas sentado do que de pé ao longo do dia.
Não é caso único. No Inquérito Nacional de Saúde de 2019 do INE, mais de metade da população com 15 ou mais anos (50,7%, contra 47,0% em 2014) dizia passar as tarefas do dia a dia sobretudo sentada ou de pé, com pouco esforço físico. E cerca de uma em cada quatro pessoas referia estar sentada mais de oito horas por dia, somando o trabalho, as deslocações e o tempo em casa.
Como as queixas não desapareceram por completo, o Rui acabou por pedir ao seu médico de família que lhe visse as costas. Fez bem. Uma caminhada por semana não é um tratamento, e uma dor lombar persistente merece uma conversa com um médico ou fisioterapeuta.
Onde não funciona
A Marta tem cuidado com grandes conclusões. Há assuntos que simplesmente pedem uma mesa. Rever um orçamento, ajustar um planeamento em Excel, uma avaliação de desempenho difícil: isso não se faz num passeio à beira-rio. As conversas confidenciais também não têm lugar num caminho movimentado onde um cliente pode passar a correr.
Teve também de aprender que nem toda a gente caminha com o mesmo gosto ou a mesma facilidade. Uma colega com uma lesão no joelho acompanhou o grupo em silêncio nas primeiras semanas e sofreu as consequências depois, nas subidas da Baixa. Desde então, a regra é clara: quem não pode ou não quer ir junta-se na segunda parte, lá dentro, ou a equipa escolhe um percurso mais curto e plano, com um banco a meio.
Não é a única a encontrar obstáculos deste tipo, como mostra um estudo dinamarquês de 2020 com trabalhadores de escritório. As equipas podiam escolher entre reuniões de pé e reuniões a caminhar. As reuniões de pé pegaram e estavam associadas a menos 59 minutos sentado por cada dia de trabalho de oito horas. As reuniões a caminhar quase não arrancaram: as pessoas consideravam-nas pouco práticas e menos eficientes. Uma boa ideia no papel ainda não é um hábito. Precisa de uma chefia que a dinamize e de um formato que se ajuste ao trabalho.
Como a equipa faz agora
Passado um ano, a equipa encontrou um formato fixo. A reunião começa lá fora, com os pontos sobre orientação e ideias, nunca mais de três, publicados com antecedência no chat da equipa. No fim, alguém grava os acordos numa mensagem de voz, para que haja sempre um registo. O percurso demora trinta a trinta e cinco minutos e termina à porta de entrada, onde quem quiser se senta mais dez minutos à mesa para o que exige números. Se chover, a reunião passa para quinta-feira. Se ainda chover, fazem-na lá dentro, mas de pé.
"Só queria pôr algum movimento no nosso trabalho", diz a Marta. "Ganhei uma maneira diferente de falarmos uns com os outros."
Se está a pensar nas suas próprias horas sentado, não precisa de virar a semana de trabalho do avesso. Às vezes basta mudar uma conversa por semana: a reunião com um colega de outro departamento, a chamada com um cliente que pode fazer de auriculares, a conversa individual com alguém da equipa. Comece pequeno e veja o que acontece.
Se perceber que a carga de trabalho ou a tensão na equipa é a verdadeira razão pela qual as reuniões emperram, uma caminhada não resolve isso. Falar com alguém pode ajudar. A sua entidade empregadora pode oferecer apoio confidencial através da Meapy Health, para colaboradores e também para chefias.
A Marta, o Rui e os colegas são personagens fictícias. A história foi construída a partir de situações frequentes.
Fontes
- Instituto Nacional de Estatística, Inquérito Nacional de Saúde 2019 (destaque), 2020. ine.pt
- Oppezzo M., Schwartz D.L., Give your ideas some legs: the positive effect of walking on creative thinking, Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 2014. doi.org/10.1037/a0036577
- Danquah I.H., Tolstrup J.S., Standing Meetings Are Feasible and Effective in Reducing Sitting Time among Office Workers, Walking Meetings Are Not, International Journal of Environmental Research and Public Health, 2020. doi.org/10.3390/ijerph17051713




